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quarta-feira, agosto 17, 2022

Farinha pouca, tanto bate até que fura (Resposta a Léo Pirão)

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Farinha pouca, tanto bate até que fura (Resposta a Léo Pirão)

Por Igor Adorno*

Olá, leitor! Como vai essa força? Sentiu saudades de mim? Eu confesso que senti saudades! Nossa relação é difícil, eu sei, todo casal tem seus contratempos, mas te perdoo por não entender direito as coisas.

Vamos ao papo de hoje. Li um texto de um publicitário, Léo Pirão, que saiu num jornal local, em que o mesmo afirma “preferir acreditar” na polícia, falando de um episódio recente em que a versão da polícia baiana acerca de uma abordagem que culminou na morte de 12 pessoas, foi colocada em xeque pela versão de moradores e parentes dos indivíduos que morreram no local. O ponto do qual quero tratar, e que não visa estabelecer nenhum tipo de antagonismo localizado com o referido autor, diz respeito ao equívoco de tratar a situação como relativa a “preferências”.

Não faz sentido “preferir” acreditar na polícia, assim como não faz sentido “preferir” acreditar na versão dos moradores. O que está em jogo não são preferências, mas sim a aplicação de critérios objetivos que permitam decidir se houve, na ocasião, uma chacina ou uma abordagem policial legítima e, a partir daí, fazer com a lei seja cumprida. Falar em preferências cria a ilusão de que o problema em questão diz respeito a “gostos”, ou seja, se você é “pró-polícia”, vai preferir a versão oficial, se você é “anti-polícia” vai preferir a versão alternativa. Isso é um erro. Não estamos falando em preferências mas de algo sobre o que repousa alguma objetividade, ou seja, uma se a polícia, na ocasião, agiu segundo o que determina a lei. Obviamente, desejar que a lei seja cumprida não é se colocar contra a polícia, assim como denunciar um médico que infringe a lei não é se colocar contra a Medicina. O cumprimento do dever implica em deveres, normas, e é a sociedade quem tem que zelar por isso.

O publicitário fala, também, da Família enquanto instituição, que está falida (isso já virou jargão) sem se dar conta de que uma instituição, pra que funcione, depende do bom funcionamento das outras. Não há Família sem Educação, assim como não há Segurança Pública sem as anteriores. Apoiar cegamente uma instituição, qualquer que seja, ser conivente com seus possíveis equívocos com a desculpa de que algum outro aspecto da sociedade não funciona, é abrir espaço pra degradação das instituições como um todo que, por estarem vinculadas, sofrem derrocada em cadeia. Em resumo, ser conivente com o mal funcionamento de uma escola pública, por exemplo, é ser conivente com a má formação de jovens e crianças, que podem ser absorvidos pela criminalidade, por conta disso. E a Família delas, você me pergunta, não são responsáveis? Claro que são, mas na medida daquilo que sabem. A degradação das instituições já se dá a tempo suficiente pra que as famílias de hoje sejam compostas por pessoas cuja formação foi deficiente e que teriam pouco a fazer, sozinhas, diante de um cenário de desastre. Pensar nos problemas como pontuais é não levar em conta que a sociedade funciona em “rede”, e uma instituição apodrecida apodrece as demais, e por causa das demais.

O clima de antagonismos que paira sobre o país, atualmente, nos deixa com a ilusão de que pensar equivale e escolher um time e torcer cegamente por ele. Cidadãos “brancos” se sentem acuados e se agremiam em torno de ideologias que os fecham pro resto do mundo. Cidadãos “pretos” se sentem acuados e se agremiam em torno de ideologias que os fecham pro resto do mundo. Policiais se sentem acuados e se agremiam em torno de ideologias que os fecham pro resto do mundo. Professores se sentem acuados e se agremiam em torno de ideologias que os fecham pro resto do mundo. Médicos se sentem acuados e se agremiam em torno de ideologias que os fecham pro resto mundo. Crentes, ateus, o caralho a quatro se sentem acuados e se agremiam em torno de ideologias que os fecham pro resto mundo. E no final, o que era pra ser uma sociedade acaba virando um amontoado de pequenos negócios, onde o bem comum significa prejuízo.

Zelar pelo bom funcionamento da lei, que deveria estar acima de todos, é a obrigação de qualquer cidadão honesto (que, ultimamente, são chamados de trevo-de-quatro-folhas). Já fui acusado de ser contra a Polícia, quando, na verdade, me manifestei contra os festejos surgidos diante da possibilidade de policiais baianos terem infringido leis. O que fiz, na verdade, foi defender a polícia enquanto instituição, defendi seu bom funcionamento, que deve se dar à luz da legalidade. A diversidade de perspectivas e modos de vida gera conflitos, dada a convicção que cada um carrega consigo de que o outro está errado. Desse modo, todos estão errados e todos estão certos e todos são burros. Se a lei é o único ponto de consenso, ainda que precário, zelemos por ela. A única coisa que pode assegurar uma vida sem assaltos a nossas casas de praia é uma vida que não seja conivente com instituições que vêm chafurdando na corrupção, e falo de todos os âmbitos da sociedade (ou times, se preferir). Sorrir diante de uma possível chacina, ou silenciar diante das injustiças sofridas por outrem é seguir a lógica do “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Sobrenomes, às vezes, pesam demais.

P.S.: Quem quiser me xingar pode escrever nos comentários “Gostoso!!”, porque eu detesto.

 

*Igor Adorno é mestrando em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), encrenqueiro profissional, filósofo nas horas vagas. Gosta de ver o circo pegar fogo porque não vai com a cara do palhaço.

Leia outros artigos do autor para o COMUNICA clicando aqui.

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Última atualização: 03/05/2015 ás 6:11 PM

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