30 C
Nova Iorque
quinta-feira, agosto 18, 2022

Crônica: ‘Desde aquele sete a um, a tristeza é senhora’

Home >> BRASIL >> Polícia identifica quatro suspeitos de participar de estupro coletivo

Crônica: ‘Desde aquele sete a um, a tristeza é senhora’

Por Cazzo Fontoura*

Meu pessimismo crônico ganhou proporções possivelmente irreversíveis naquele dia trágico: 8 de julho de 2014. Há algum tempo, tenho resistência à alegria – sofro de moderado asco e pavor de gente muito feliz –, o que não faz de mim um sujeito triste. Mas, é com imenso pesar que admito: essa total ausência de otimismo que me afeta tornou-se algo mais profundo à medida que a Alemanha conduzia o goleiro Júlio Cesar, como num sem fim, a buscar a bola no fundo do gol. Desde aquele sete a um, a tristeza é senhora.

Quando fora anunciado que seria a Alemanha o adversário da semifinal, de imediato, pensei: “Agora acabou. Encerra-se aqui a participação do Brasil em casa.” É que sempre fui adepto àquela frase do Stanislaw Ponte Preta – “Futebol tem lógica, sim” – e, pautado nela, não tive dúvidas de que os alemães já tinham a vaga garantida na final. Tal convicção não era fruto do recente espasmo que muitos tiveram ao ver, somente em 2014, o bom trabalho desenvolvido por Neuer, Ozil, Muller e companhia. Eu já anunciava ter visto uma Alemanha nova desde a Copa de 2006. O futebol sisudo perdia espaço para um jeito de jogar mais leve, com toque de bola refinado como de costume, mas, acrescido de velocidade e absoluta fome de fazer gols – algo nunca antes visto na história daquele país.

A arrogância e o paternalismo – que serviram, por longo tempo, de camuflagem à total incapacidade de Felipão – ruíram diante da objetividade, sem perda de beleza, regada a muito trabalho e estudo aplicado pelos alemães em pleno Mineirão. Além de competentes, deram exemplo de ética: puxaram o freio no segundo tempo, pois, sabiam que poderiam, ali, desenhar um vexame ainda maior. Não contente, a seleção brasileira ainda tomou mais dois gols e, graças à condescendência moderada dos germânicos, fez o malquisto gol de honra.

Pouco antes de começar a fatídica partida, ao ver Bernard escalado, não imaginei que, por causa disso, estaríamos consequentemente fadados ao fracasso moral. Como disse, já sabia que não venceríamos, ainda que houvesse Neymar – que é muita andorinha para tão pouco verão – em campo. Desde o jogo contra a Croácia, tive certeza do que já vinha percebendo na montagem que Felipão deu à equipe: saída de bola pouco inteligente dos zagueiros; volantes mais fixos do que em movimento ofensivo; nenhuma arrumação em favor de um cérebro no meio de campo; centroavante isolado e, por isso mesmo, inútil.

O desespero para vencer o Chile, apenas nas cobranças de pênaltis, fora também algo óbvio e só não se consolidou como derrota porque a trave de Júlio Cesar interrompeu o bom trabalho de Sampaoli. Diante da Colômbia, de fato, vencemos convencendo, porém, parcialmente: fora um bom primeiro tempo e um tempo complementar desesperador. Nas partidas citadas e mesmo no empate horroroso contra o México e na vitória sobre a fraca e desunida equipe de Camarões, o exercício de meu pessimismo já me dava todos os sinais de que a tragédia viria, se não causada pela Alemanha, possivelmente pela Holanda. O destino e nosso amadorismo foram imperdoáveis: no total, como gosta de frisar o Galvão Bueno, tomamos um expressivo 10 a 1 em 180 minutos de bola rolando.

O projeto alemão ratifica o que insisto dizer: futebol é suor. O trabalho que vem sendo desenvolvido, a longo prazo, enfim, deu o fruto esperado. E não estou falando da conquista do ano passado. Mais e maior: gerações de bons jogadores que, decerto, irão se suceder, inovação de esquemas táticos, renovadas propostas de treinamento, começando da base, culminando nos profissionais. O tal dia trágico deveria ter servido de aula para toda a nossa vida. Mas, não é bem isso o que estamos presenciando passados 365 dias.

Um ano se passou e o resumo assim se faz: finda a participação desastrosa na Copa do Mundo, questões estruturais permanecem desajustadas e não foram convocadas reuniões nem congressos em que se pudesse discutir novos rumos para o nosso futebol. Pior: Dunga – nada mais do que um representante mais jovem, mas não menos defasado – tornou-se técnico da Seleção.

Corromper aqui o que se convencionou chamar por crônica (posto que o tema seja de um tempo já passado e não presente) tem sua razão de ser algo próximo à escrita de memórias um tanto tristes porque, ainda que outros tantos aspectos – essenciais ou até mesmo superficiais – de nossa existência tendam a nos distrair e nos fazer esquecer,é sim saudável lembrar que no dia 8 de julho de 2014 nós, que até então arrotávamos ser o país do futebol, tivemos a máscara estraçalhada e jogada ao chão, vimos a Alemanha nos conduzir à desilusão de que, já há algum tempo, futebol cá entre nós não passa de mera atividade esportiva.

♦ *Cazzo Fontoura é professor, poeta e escritor. ♦

comentários



Última atualização: 07/08/2015 ás 3:20 PM

Deixar uma resposta

Artigos relacionados

Stay Connected

0FãsCurtir
3,438SeguidoresSeguir
0InscritosInscrever
- Advertisement -spot_img

Artigos Mais Recentes