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quinta-feira, agosto 11, 2022

COMUNICA Entrevista Allan do Carmo, campeão mundial de Maratona Aquática

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COMUNICA Entrevista Allan do Carmo, campeão mundial de Maratona Aquática

Allan do Carmo garantiu título mundial antecipado na China, em outubro | Foto: CBDA

Um mês após se sagrar campeão mundial pela primeira vez e atingir, até aqui, o estágio mais alto na carreira, o baiano Allan do Carmo, 25 anos, já planeja vôos mais altos, ou melhor, braçadas mais largas. Em entrevista exclusiva ao COMUNICA, o filho de Seu Walmir e dona Maria Augusta falou sobre o sonho de disputar a Olimpíada do Rio, em 2016, e conquistar uma medalha. Após a conquista antecipada do mundial em Hangzhou, na China, nada de descanso: ainda resta uma etapa do Campeonato Brasileiro. Por sorte, terá a chance de fechar o ano com chave de ouro em casa, no mar da Bahia. Líder do circuito, só precisa de um terceiro lugar nas duas últimas etapas a serem disputadas na praia de Inema, em Salvador, nos próximos dias 13 e 15/11, para conquistar a tríplice coroa em 2014: mundial, sul-americano e nacional. Mas nem tudo são flores na vida de Allan, o menino que entrou na natação por conta da hiperatividade, aos sete anos, e hoje leva uma vida hiper-controlada: come na hora e quantidade certa; não perde noite; nada de exageros. É o preço do sucesso. No entanto, a estrutura que tem aqui não favorece tanto, confessou nosso campeão. “Fora daqui, acho que eu teria uma estrutura melhor”, disse, citando como um dos percalços o trânsito de capital, que o faz perder horas preciosas da preparação. Outro reclame de Allan é quanto ao apoio ao esporte na Bahia: para ele, as empresas poderiam ajudar muito mais. Quanto aos governos, a queixa é quanto a falta de estrutura para a prática de esportes – futebol é exceção. Confira a entrevista concedida ao repórter João Gabriel Galdea na última quarta-feira (5/11).

COMUNICA BAHIA: O que passou pela sua cabeça assim que você saiu da água em Hong Kong, na semana retrasada, campeão mundial de maratonas aquáticas?

ALLAN DO CARMO:
Quando você sai ali na disputa é algo natural, mas ainda não tinha caído a ficha de campeão mundial. A ficha só veio cair quando eu cheguei em Salvador e vi minha família me esperando no aeroporto. Teve carro do Corpo de Bombeiros me recepcionando e essa foi a parte que deu aquele choque da importância desse título e tudo que eu tinha conquistado.

CB: Fazendo um exercício de imaginação, o que passaria em sua cabeça se conseguisse a sonhada medalha olímpica?

AC:
O sonho de todo atleta é participar de uma Olimpíada, de conquistar uma medalha olímpica e hoje o meu não é diferente. Os resultados que obtive me fizeram acreditar ainda mais que é possível conquistar essa medalha, que tem uma importância muito grande e ainda mais por ser aqui no Brasil. Quero descobrir essa sensação.

CB: Você já participou de outra Olimpíada. Como você avalia o seu desempenho?

AC:
Participei em 2008. Fiquei em 14º e pra mim foi muito bom. Eu tinha apenas 18 anos e foi uma experiência incrível. Fiquei impressionado com toda estrutura do que é uma Olimpíada. É uma coisa de outro mundo você ver todos os ídolos de vários esportes em um só lugar.

CB: Você se considera favorito para 2016?

AC:
Acho que não. É uma prova muito disputada, muito competitiva. Tem pelo menos dez favoritos. Eu me considero estar na briga, mas não favorito.

CB: A última medalha baiana na água foi de Edvaldo Valério, o Bala. Você tem contato com ele?

AC:
Eu morava em Itapuã, e o Valério também. Meu pai tinha um bar próximo à casa dele e eu fui lá. Ele chegou a me dar um broche.

CB: Quando ele ganhou a medalha olímpica, em 2000, você tinha por volta de 10. Você se lembra como foi?

AC:
Eu lembro sim. Foi uma coisa de arrepiar. Você ouvir a gravação de Galvão Bueno gritando “é medalha, é medalha pro Brasil!” Essa é uma das coisas que temos que nos inspirar. Por toda dificuldade que ele passou, ele é um espelho aqui na Bahia.

CB: Diante disso, por que você não escolheu a natação na piscina e optou pelas travessias?

AC:
Cada atleta tem sua característica e a minha sempre foi provas de fundo, mais longas, e aqui na Bahia nós temos uma tradição muito grande, tem a travessia Mar Grande-Salvador e um dos melhores circuitos de travessias do Brasil. E a cada dia eu fui me tendenciando mais pra maratona aquática, e os resultados começaram a acontecer também. Acabei me especializando em maratonas.

CB: Você chegou a competir nas piscinas?

AC:
Sim. Até hoje eu participo de competições. Logo que comecei, a maratona passou a ser um esporte olímpico, tanto que eu participei do primeiro Pan Americano (2007) e a primeira Olimpíada (2008). Foi algo que casou certinho à evolução de Allan com a maratona aquática.

CB: Quando você tinha 14 anos, disputou pela primeira a Mar Grande-Salvador e já teve um desempenho excelente: 3º lugar. Você lembra como foi a reação dos veteranos, ao serem superados por você?

AC: É difícil você falar pelos outros. Eu não sei como é que eles me olhavam. Mas acho que foi uma surpresa pra muitos, ainda mais aqueles que treinaram comigo. Eles não esperavam eu subir no pódio. Ali foi uma alegria imensa pra mim, pra minha família e principalmente pra meu pai.

CB: Como é o treinamento quem faz a travessia Mar Grande-Salvador? É só na piscina, ou alguém faz mesmo a travessia?

AC:
A gente faz aqui na piscina. A travessia esse ano é em 21 de dezembro. Eu, por exemplo, treino todo dia de manhã e de tarde. A gente não treina fazendo a travessia. Só faz no dia mesmo. Agora, dias 13 e 15, tem a prova em Inema, de 7,5 quilômetros, que serve de preparação. No sábado, dia 15, tem outra prova de 5 quilômetros que também serve de preparação e o treino é diário. São mais ou menos 10 ou 12 quilômetros por dia na piscina pra pegar o ritmo pra travessia.

CB: Esse ano é a primeira vez que dois campeões mundiais, e ainda por cima baianos, vão disputar a Mar Grande-Salvador. Você e Ana Marcela Cunha (tri-campeã mundial). Vocês evoluíram juntos e, pelo que parece, são amigos. Como é a conversa de vocês, hoje? Costumam lembrar dos momentos difíceis que passaram até chegar aqui?

AC:
A amizade que a gente tem é muito longa, né? A nossa primeira convocação pra seleção brasileira foi junta, em 2006, no Mundial de Nápoles (Itália), então a gente vem desde lá juntos na seleção. É uma amizade grande. Até na Olimpíada de 2012 que eu fiquei fora, ela ficou fora também. Mas, é isso, a gente sempre vem trabalhando junto, crescendo junto, passando por dificuldades e glórias. A gente fica feliz por essa parceria. A gente desabafa um com o outro, passa dicas, dá uma palavra de conforto pra competir melhor. Essa é a amizade verdadeira, um tentando ajudar o outro.

CB: O que explica a vanguarda da Bahia nesse esporte? Mar tem em todo lugar… O que fazemos de diferente?

AC:
Acho que é a importância que a Bahia dá à maratona aquática. Hoje a gente tem o melhor circiuto do Brasil, que é o Campeonato Baiano, com nove a 10 etapas durante o ano. Ainda tem a Mar Grande- salvador, que tem tradição, é uma prova mística. Acho que isso ajuda a criar novos talentos, evoluir.

CB: E os treinadores?

AC:
Sim, temos treinadores especializados na prova de maratona. A gente tem uma tendência a especializar, a pegar um menino que nada fundo e já botar em maratona, então, desde pequeno você já vai dando a experiência de nadar a maratona. Então, ele novo já vai pegando o gosto pelo esporte. Tudo isso faz essa tradição da Bahia, que vem desde Lourival Quirino, Viviane  Motti, Fábio Lima, Luiz Eduardo e grandes outros atletas que tiveram na seleção, e a gente vem dando continuidade.

CB: Este ano, você pode fechar o ano com chave de ouro conquistando a chamada tríplice coroa da maratona aquática: Sul-americano, Mundial e Brasileiro, e conquistando este último aqui na Bahia. A festa já ta preparada? Vai ter feijoada?

AC:
A gente tem agora essa missão do Campeonato Brasileiro, de conquistar aqui em Salvador, que é uma responsabilidade ainda maior, pra conquistar isso em casa. Mas a festa não está preparada, não. Os treinamentos estão ali duros, pesados, focados, pra a gente conseguir o resultado.

CB: Diante do título mundial, já podemos considerá-lo favorito à classificação antecipada para a Olimpíada (Rio-2016) em Kazan, na Rússia, no ano que vem? Os dez melhores já garantem a vaga e você vai estar entre eles, não é?

AC:
O objetivo é esse. A maratona hoje é uma prova muito disputada, de muito detalhe e estratégia, e qualquer detalhe faz a diferença. A gente tem que ter muito cuidado. Tenho todas as chances, mas não é nada fácil. A competitividade é muito grande. Para se ter uma ideia, no mundial de Barcelona, no ano passado, eu cheguei em 7º lugar e a minha diferença para o 1º colocado foi de três segundos. Então, se você não estiver bem no dia, física e tecnicamente, isso tudo pode interferir. Não tem nada definido.

CB: A gente sabe que, em geral, a carreira de esportista não é longa, especialmente em esportes de grande rendimento. Você já está se preparando para o pós-carreira?

AC:
[risos] Eu ainda não penso muito nisso, não. As pessoas sempre falam se eu penso em montar minha piscina, ou um projeto social, mas eu estou focado em outras coisas. Eu acho que ainda não é o momento de dividir energias com um negócio. Aqui na água requer muita disciplina e se eu estiver dividindo em duas tarefas, acho que não vou dar 100% na água. Agora, só penso nos treinamentos.

CB: Pensa em mais quantas olimpíadas?

AC:
Acho que tenho possibilidade de ir agora, 2016 e 2020, e se tiver mais uma forcinha restando, vou tentar 2024.

CB: Você sempre foi muito dedicado ao esporte. Tem uma vida regrada, come e dorme na hora certa desde sempre e, muito por isso, sempre teve ótimos rendimentos e conquistas. É uma história parecida à de dois grandes nomes da natação, Michael Phelps (29 anos) e Ian Thorpe (32). No entanto, hoje, os dois têm problemas com álcool, depressão, e há quem atribua isso a essa dedicação exagerada ao esporte. Eles não teriam sido jovens comuns e estariam tentando, grosso modo, “recuperar o tempo perdido”. Como é a cabeça de Allan do Carmo com relação a isso?

AC:
Eu acho que eles não podem reclamar da dedicação, pois conseguiram tudo que têm por conta disso. Eles pararam um momento para poder estar curtindo isso, pra aproveitar…

CB: E você consegue aproveitar?

AC:
Assim, um pouco. A gente tem uma rotina de viagens muito intensa, né? Esse ano foram mais de 120 dias viajando para competição. Então, a gente tem que ter muito resguardo, ainda mais a nossa prova, que é de resistência. Então, tem que estar bem descansado, não pode perder noite. Uma prova que requer um descanso maior. Mas sempre que dá… Tem aquelas férias, no final do ano. Nessa época o treinador já fala: ‘olhe, quero você 15 dias sem cair na piscina. E se cair, não dê uma braçada. Quero você descansando 100%, porque quando você voltar, quero você com todo o gás, pra você descansar sua cabeça.’

CB: E você tem acompanhamento de psicólogo.

AC:
Sim, tenho. Algumas fases a gente passa por esses desgastes de temporada, de estar cansado, e a gente tem todo esse trabalho pra tentar monitorar e equilibrar essa parte, dar um contrapeso, pra voltar a focar de novo na natação.

CB: E nas folgas, o que você faz pra se divertir? Que locais de Salvador costuma ir pra se distrair?

AC:
Quando tenho folgas, saio com minha namorada pra jantar, vou assistir um cinema com ela. Vou ali na Barra ver o pôr-do-sol, ou vou no MAM, pra fugir um pouco dessa rotina.

CB: Ana Marcela foi para São Paulo e você já teve algumas propostas para ir embora também. Por que não saiu?

AC:
Eu já tive duas propostas pra sair da Bahia, mas não saí por causa da minha estrutura familiar, minha mãe e meu pai, que seguem minha rotina, me dão muito apoio, acordam 4h da manhã pra fazer meu café, almoço. E aqui meu treinador, Rogério Arapiraca. E a equipe que eu treino também, que é muito forte em prova de fundo, prova de resistência.

CB: Aqui você acha que treina em condições ideais?

AC:
Fora daqui, acho que eu teria uma estrutura melhor, né? De ter um clube que tem suporte de fisioterapia, de psicólogo, preparação física, um centro de treinamento mesmo, tudo num só lugar. Isso você economiza tempo, economiza espaço. Você sai da piscina e já está ali na academia. Aqui a gente treina na piscina, sai daqui, pega o trânsito, vai pra academia, se estressa pra procurar estacionamento, pega o carro de novo pra ir pro psicólogo, pro fisioterapeuta. Vai pra casa, pega trânsito de novo, e vai perdendo esse tempinho, que é desgastante. Seria diferente se fosse tudo num mesmo lugar, teria um descanso maior. São detalhes que para o alto rendimento faz muita diferença.

CB: Como você vê o apoio ao esporte na Bahia, hoje?

AC:
O apoio ao esporte é muito pouco, né? A gente tem projetos, leis de incentivo ao esporte, tem o Faz Atleta, mas a gente sente falta das empresas apoiando os atletas. De estar incentivando, de ter mais patrocínios. Aqui na Bahia a gente não tem estrutura nenhuma. Só o futebol que tem a Arena Fonte Nova. Mas o boxe, que a gente tem alguns dos melhores boxeadores do mundo, a gente não tem incentivo. Na natação, no vôlei, no basquete. Então, a prefeitura e o governo não fornecem a estrutura para a prática de esportes.

CB: Ainda tá sem a piscina olímpica, né?

AC:
Sim. Acho que isso é um pouco de descompromisso com o esporte, que é educação, saúde e um meio de tirar as pessoas da rua. Acho que falta um pouco disso.

CB: Aonde você estava nas manifestações de junho do ano passado?

AC:
Tava treinando.

CB: Mas queria ir pra rua protestar contra ou a favor de alguma coisa? Se fosse, iria protestar por isso – por melhores condições para a prática esportiva?

AC:
Não. A gente, como atleta, tem que se portar no momento certo. Acho que ali foi uma manifestação da população, que acho que tem muito valor, que eu apoio, mas a gente como atleta, formador de opinião, tem que cobrar no momento certo. Não estar se expondo.

CB: Agora que você foi campeão mundial, deve aumentar o número de fãs, e fãs normalmente querem saber coisas mais particulares do ídolo. Queria que você falasse sobre seus gostos. Começando pela música, quais as suas preferidas, estilos?

AC:
Eu gosto do axé, do pagode, da música baiana. Gosto muito de Léo Santana, Harmonia, Ivete Sangalo. Gosto de MPB também. Depende do momento. Antes das competições, quem escolhe as músicas é meu treinador, Rogério Arapiraca.

CB: E filmes? Algum pra indicar?

AC: Normalmente assisto no avião. Gosto mais de filme de ação. Mas o último que assisti no cinema, com minha namorada, foi A Culpa é das Estrelas. A mensagem que o filme passa é legal.

CB: E na TV, assiste o que?

AC:
Acompanho mais futebol. O meu Bahia, só isso.

CB: Religião, segue alguma?

AC:
Católica. Mas não frequento muito.

CB: Dos lugares do mundo que conheceu, quais indicaria para turistas ocasionais?

AC:
Aí depende muito do gosto da pessoa. Se quiser um lugar pra se divertir, de festa, de praia, eu indico Cancun, no México. Pra passear, fazer compras, Estados Unidos ou Hong Kong.

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Última atualização: 11/10/2014 ás 1:29 PM

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